quarta-feira, 19 de junho de 2002

Como

Como envolto em mar revolto
Ou caído em selva escura...

Como soldado em guerra ferido
Ou animal triste cativo...

Como atleta longe do esporte
Ou intelectual longe dos livros...

Como sábio sem alunos
Ou como poeta sem lápis...

Como violeiro sem viola
Ou um ator sem papel...

Como político sem tribuna
Ou como navegante sem barco...

Como porto sem cais
Ou romance sem letras...

Como poemas sem palavras
Ou a vida sem amor...

Como manhã sem sol
Ou como eu sem você.

Pablo de Araújo Gomes, 19 de junho de 2002

sexta-feira, 3 de maio de 2002

As Pessoa

As pessoa é imperfeita
Pru que tem imperfeiçãos,
E imperfeiçãos é um defeito
Que as pessoa tem de montão…

As pessoa não tem inducação,
As pessoa não tem saude
Procê vê que puriço não sabe nem falá…

As pessoa nem iscrevê sabe,
Pruque ninguem dexô elas aprendê…

Num sei como deus dexa as pessoa vivê!

Pablo de Araújo Gomes, 03 de maio de 2002

sexta-feira, 4 de maio de 2001

Flor

Tu és uma flor,
E o porquê, já te digo;
É favor dar-me atenção,
Que pensei, cá, comigo:

As flores reúnem,
Em simplicidade,
O que se elogia
Até complexidade.

E não se resumem:
As flores reúnem
O que há de invejável,
O que há de afável:

Beldade debalde,
Perfume inefável,
Um modo amável
De ser sem igual!

Não cansam abelhas,
Como as borboletas,
Da busca constante
Por teu néctar farsante!

Reúnes também,
Em ti, complacente,
Um modo inocente
Que tão poucas têm...

Beldade debalde
Perfume inefável,
Um modo amável
De ser sem igual!

O que há de invejável,
O que há de afável,
Constância infindável,
És inabalável!

Tu conflagras o mais nobre dos mortais,
Tu dominas teu Olimpo como ninguém mais,
Tu tens tudo pra ser flor, sendo assim a flor se apraz,
És só tua, sou só teu: o que queres mais?

Pablo de Araújo Gomes, 4 de maio de 2001

terça-feira, 19 de setembro de 2000

Divina!

Divina seja a hipocrisia,
Divina seja, divina!

Divina seja a sacristia,
Divina seja, divina!

Divina seja esta agonia,
Divina agonia, divina!

Divina seja toda má companhia,
Divina, companhia divina!

Divina seja esta repetição insuportável!
Divina... chata mas divina!

Que toda dor seja tão intensa,
Para que tão logo se acabe!
E que, enfim, possamos dizê-la divina!

Pablo de Araújo Gomes, 19 de setembro de 2000

segunda-feira, 1 de março de 1999

O sertanejo e a gota

Uma gota d'água,
A simples gota, puro pingo
Que escorrega na vidraça,
E resiste como nenhum outro
À evaporação que a deteriora
Após chuva tão escassa!

Quem me dera esse pingo,
Caísse em minha boca sedenta,
A míngua em minha boca!

E se essa gota,
Por um momento,
Me ceder o afeto
De escorrer em meu corpo,
É esta, meu Deus, que me banha a alma!

E há outra gota,
Escorre agora em meu rosto,
Uma gota de dor,
Da saudade d'água que me domina...

Como quero a gota,
As do conta-gotas não são iguais!
Se pudesse alcançá-la, ao menos,
Mas fico a assistir a seca, assim, inglório.

E mais à frente goteja,
A goteira, a cachoeira?
Não. Prefere a gota descer a vidraça,
E parece que em câmera lenta, a aflição do sertanejo
Em ver aquela gotícula perder-se em areias secas.

E grotesca parece a imagem
Do sertanejo que se joga contra a gota d'água,
Não muito distante do rio...
Pois proibiram-no de se aproximar do São Francisco.


Pablo de Araújo Gomes, alguma noite de 1999