terça-feira, 19 de setembro de 2000

Divina!

Divina seja a hipocrisia,
Divina seja, divina!

Divina seja a sacristia,
Divina seja, divina!

Divina seja esta agonia,
Divina agonia, divina!

Divina seja toda má companhia,
Divina, companhia divina!

Divina seja esta repetição insuportável!
Divina... chata mas divina!

Que toda dor seja tão intensa,
Para que tão logo se acabe!
E que, enfim, possamos dizê-la divina!

Pablo de Araújo Gomes, 19 de setembro de 2000

segunda-feira, 1 de março de 1999

O sertanejo e a gota

Uma gota d'água,
A simples gota, puro pingo
Que escorrega na vidraça,
E resiste como nenhum outro
À evaporação que a deteriora
Após chuva tão escassa!

Quem me dera esse pingo,
Caísse em minha boca sedenta,
A míngua em minha boca!

E se essa gota,
Por um momento,
Me ceder o afeto
De escorrer em meu corpo,
É esta, meu Deus, que me banha a alma!

E há outra gota,
Escorre agora em meu rosto,
Uma gota de dor,
Da saudade d'água que me domina...

Como quero a gota,
As do conta-gotas não são iguais!
Se pudesse alcançá-la, ao menos,
Mas fico a assistir a seca, assim, inglório.

E mais à frente goteja,
A goteira, a cachoeira?
Não. Prefere a gota descer a vidraça,
E parece que em câmera lenta, a aflição do sertanejo
Em ver aquela gotícula perder-se em areias secas.

E grotesca parece a imagem
Do sertanejo que se joga contra a gota d'água,
Não muito distante do rio...
Pois proibiram-no de se aproximar do São Francisco.


Pablo de Araújo Gomes, alguma noite de 1999

quarta-feira, 10 de fevereiro de 1999

Fascinado Por Ti

Teus olhos negros,
Palpitantes, poderosos...
De um poder que me fascina

Tua pele,
A qual nunca tive a bênção de tocar,
É bela como tu,
E me parece mais macia
Que a mais macia ceda oriental

E que para amar-te
Como te amo,
Não muito custa,
Apenas ver-te como te vi
Encontrando sempre paz
Em tua presença

Fazes-me ameno, e louco,
E és mais rara que o mais belo
E mais valioso diamante

E, ao indagar-me quem és,
Só chego a uma ilação:
Tu és aquela que não sabe
O quanto reina em meu coração

Pablo de Araújo Gomes, fevereiro de 1999



Ah! os velhos tempos, o amor adolescente, platônico, inofensivo... eu não tinha nem 14 anos de idade... bons tempos aqueles! A gente nessa fase tem a ingenuidade de pensar que sofre, que tem problemas. E tem, às vezes, mas não sabe o que a vida nos reserva no futuro, né?

sexta-feira, 1 de maio de 1998

Monstro de mim

Monstro de mim,
Que sou eu mesmo,
Quando não me encontro,
Quando não sei quem sou
E sou quem ninguém imagina...
Que me encontro em algum lugar
Sem estar em lugar nenhum.
Paro de pensar,
E descubro que estou pensando demais.
Não entendo nada...
Pois estou com a mente cheia
De tão vazia que se encontra
E de tão estranho que descubro que sou

Pablo de Araújo Gomes, meados de 1998